Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

A nova Esquerda Europeia: mitos e realidade



A diabolização da Esquerda é por si só um pró-forma no modus operandi das agências noticiosas nacionais e internacionais. Tal situação agudizou-se, claramente, quando na segunda-feira transacta os mercados, interesses adquiridos e instâncias financeiras acordaram com os ecos do que se passava em França e na Grécia.

São várias as ilações a retirar. Em França, Sarkozy sofreu uma derrota pesadíssima ao ser o primeiro presidente da 5º República francesa a não ser reeleito. Os cidadãos franceses responderam, nas urnas, com um veemente não ao Tratado Orçamental Europeu – apenas mais um conjunto de medidas impostas sem serem submetidas a escrutínio popular. Ainda que não se devam criar ilusões em relação ao que irá Hollande fazer ao encetar as tão amargas negociações com a parte ainda resistente, mas moribunda, do Merkozy, é inegável afirmar que os franceses se insurgiram contra a austeridade. Os resultados de Melénchon na primeira ronda e agora a derrota de Sarkozy evidenciam a necessidade de mudança e o início de uma ruptura com as políticas de austeridade do “Pacto Franco-Alemão”.

Os mercados financeiros agitam-se, a bolsas entram em queda. O anúncio de colapso está já a ser feito pela comunidade internacional. A “extrema-esquerda” pode chegar ao poder na Grécia! As imagens dos gulags da URSS e das filas para senha de refeições já estão a ser preparadas para entrarem em alta rotação nos media. Ora bem, para os conservadores bacocos que querem continuar a veicular a ideia de que todo e qualquer um que se afirme como socialista tem no seu íntimo o desejo de “comer criancinhas ao pequeno-almoço”, desejo as boas vindas ao Socialismo do século XXI.

É de recriminar a existência de “extremistas” que querem realizar uma auditoria à divida e renegociá-la, que querem formar um governo de esquerda alargada contra o governo da troika, que querem cessar a aplicação das medidas de austeridade. Veja-se bem, esses mesmos extremistas não querem sair do Euro e assumem uma postura europeísta! Em suma, estes seres ignóbeis que querem construir uma sociedade mais igualitária e retirar a corda do pescoço do povo grego, alcançaram nada mais, nada menos de 16% dos votos (mais de 1 milhão de votos), sendo o segundo partido mais votado nas legislativas gregas.

Pois bem, atribuam a conotação que quiserem a este movimento mas o povo grego mais uma vez se manifestou. E manifestou-se contra a ditadura da troika, contra verem a sua vidas serem saqueadas por ingerência externa para satisfazer os privilegiados de sempre.
A pergunta impõe-se. Será possível ao Syriza formar Governo? As últimas notícias indiciam que tal não será possível. O sectarismo do Partido Comunista Grego, o compromisso do PASOK com o memorando e a posição dúbia da Esquerda Democrática – ainda que tenham chegado a um acordo – tornam pouco provável a formação de uma coligação.

Há esperança na Europa. As falácias da inevitabilidade e do fatalismo começam, lentamente, a ser descodificadas pelo povo europeu. E talvez, se esta vaga de não conformismo se alastrar pela Europa, possamos um dia efectivamente auto intitular-nos de povo europeu, ao invés de fantoches da troika, da França e da Alemanha.

A Front de Gauche e o Syriza são um exemplo que deveria ser transposto para Portugal. Um alargamento da esquerda, uma rejeição do sectarismo em nome da luta pelos direitos dos portugueses, um consenso que nos permitisse inverter esta situação de submissão. Por cá continuaremos, a lutar por isso. Perceber que um partido da nova Esquerda Europeia conseguiu obter 16% dos votos, é perceber que a troika está pela hora da morte. E no final do dia, somos todos gregos.

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Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Dry the River - No Rest





I used to be a king alone Like Solomon or Rehoboam 
And in this, corvée day did jealous keep my picture frames 
and everything did oxidate in place 
But then it came a single sound 
with astral nights and calcite and algebra 
and symmetry and none of this was lost on me 
and I could see how still I'd been before.

Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Em nome da troika, morte à democracia

Nos últimos meses temos vindo a assistir à implementação de um rol variado de medidas, na sua maioria, em “nome da troika”. O PSD usa o memorando de entendimento com a troika como álibi para legislar de acordo com os seus próprios ideais – o memorando irá sempre surgir como sendo a justificação suprema da obrigatoriedade da implementação das mais diversas medidas. Neste mesmo contexto surge mais um golpe à democracia – a questão da fusão/extinção das freguesias.

A reordenação administrativa das freguesias pode parecer, numa primeira análise, uma questão menor. Dir-nos-ão que questões como as alterações ao código de trabalho, aumento de impostos e tantas outras medidas é que merecem ser discutidas. Não descurando as mesmas, parece-me essencial dar o devido valor a esta questão e analisar o verdadeiro intuito inerente na sua aplicação e os problemas com os quais a mesma se depara.

Como tem vindo a ser hábito, esta proposta surge como uma nova forma de controlar a despesa do Estado, ao reduzir as freguesias e o seu aparelho administrativo. Esta é a primeira falácia. Numa altura em que o Estado “Gordo” é sobejamente criticado, esta medida terá um impacto reduzidíssimo na aplicação do Orçamento de Estado e, consequentemente, na diminuição da despesa – o argumento para a implementação desta medida é, portanto, pura demagogia. Por outro lado, a decisão de fusão ou extinção de freguesias deverá partir das próprias, visto que nem a Assembleia da República nem qualquer outro órgão legislativo pode fundir ou extinguir freguesias sem que estas o “solicitem”. A acontecer, tal seria inconstitucional. Desta forma surge o maior problema com o qual o Governo se depara – a vontade dos autarcas. Não existe aceitação por parte dos órgãos do poder local para “acatar” as ordens do Governo. Ora, esta situação vislumbra-se como um problema para Passos Coelho visto que grande parte da contestação a esta medida tem sido feita por autarcas do seu próprio partido.

Para além dos problemas levantados no que toca à sua eficiência, importa ainda referir o principal problema. A agenda escondida por detrás desta medida é facilmente descortinada. Ao reduzir o número de freguesias e ao ter no bolso a alteração na forma de eleição para a Assembleia Municipal, o Governo pretende reduzir a democracia local. Fá-lo-á de duas formas distintas. A primeira passa pela redução da representatividade dos partidos mais pequenos, ficando a representação partidária praticamente reduzida a PS e a PSD. Por outro lado, ao ser colocada em prática, esta medida levará à criação de um fosso ainda maior entre os cidadãos e os órgãos políticos.
É nas freguesias que reside a base das democracias e é nas freguesias onde o cidadão pode mais facilmente entrar em contacto com os responsáveis pelas políticas que influenciam o seu dia-a-dia. Para não falar ainda da questão cultural e de identificação local com a sua freguesia. O Documento Verde – e depois do projecto-lei apresentado pelo governo - preparado por Miguel Relvas coloca as especificidades regionais para segundo plano de forma que se possa redesenhar o mapa de o nosso país a regra e esquadro como se tal se tratasse de um Tratado de Tordesilhas dos tempos modernos.

A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou, sem consulta popular, um parecer favorável ao projecto de Lei do PSD e o mesmo começa a ganhar terreno. Por estas e por tantas outras razões impõe-se a necessidade da realização de um referendo popular. Os cidadãos devem ser auscultados e a sua opinião deve ser essencial neste que é mais um ataque à democracia. Um ataque feroz à democracia de proximidade em nome da troika, em nome dos interesses económicos instalados.

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Domingo, 13 de Novembro de 2011

A Europa e o Futuro

No contexto do pós-II Guerra Mundial, particularmente devido a características político-económicas, a ideia da construção sustentada de uma confederação de Estados Europeus com elevado grau de interdependência tanto a nível político como económico e social tomou as proporções que hoje reconhecemos na União Europeia. A teorização da criação de uma comunidade de Estados Europeus encontrou e continuará a encontrar obstáculos das mais variadas índoles.
O contra-senso, ironicamente, prende-se com o surgimento de problemas que, supostamente, estariam salvaguardados com a própria génese da UE.

Teoricamente, a União Europeia teria tudo para dar certo. Isto é, se o mundo fosse um local idílico. Na Era da Globalização, onde a necessidade constante de acalmar os mercados se sobrepõe ao principio fulcral de solidariedade e respeito pelos direitos dos povos, não é de admirar que a Europa caminhe em direcção ao abismo.

Os consecutivos tratados europeus ambicionavam criar directrizes comunitárias de entendimento económico, social e politico. Nas últimas duas décadas, foram notórios os esforços para relançar a Europa para os lugares cimeiros dos “motores da economia mundial”. A crise da dívida pública Europeia veio destruir tais ilusões. O euro fracassou. A falta da criação de medidas monetárias articuladas levou a um desequilíbrio brutal entre as mais pequenas e as mais poderosas economias europeias. A Europa deve crescer como um todo e não apenas “à boleia da Alemanha e da França”. Para ultrapassar a crise da dívida pública europeia a solução poderia passar, por exemplo, pelas eurobonds – correspondendo ao princípio da solidariedade económica.
Este raciocínio leva-me a referir um caso específico. O G dos PIG’S tem sido o mais massacrado pela UE e pelos porta-vozes da vontade europeia – Merkel e Sarkozy – mas, não criem ilusões, a atenção irá certamente virar-se para as outras “letras”.

A Grécia chegou novamente a um impasse. Desta vez, o primeiro-ministro Papendreou decidiu, após a confirmação do envio de uma nova tranche de apoio à economia grega, chamar os gregos a decidir sobre a continuidade da Grécia na zona euro. Volvido pouco mais de um dia, Papandreou demonstra intenções de voltar atrás com a sua palavra. Tudo devido às pressões dos mercados e, principalmente, de Durão Barroso, Merkel e Sarkozy.

A conclusão que retiro é uma só - os mercados e os lideres desta Europa têm medo da democracia. Impera agora, tentar responder a algumas perguntas. Que Europa é esta que tem medo da democracia? Que Europa é esta que relega os seus princípios e orientações centrais para último plano em detrimento da saúde das suas maiores economias e dos mercados financeiros?

A nossa geração foi bombardeada com a ideia de que nos deveríamos sentir como Europeus. Deveríamos afirmar, de peito cheio, que somos Europeus antes de dizer que somos portugueses. Para tal acontecer, a génese desta UE tem que mudar. Afinal de contas, eu não me orgulho de uma Europa que não se incomoda por ver um país e um povo claudicar por puro interesse económico.

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Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

Conservadorismo bacoco

Coincidência do destino ou não, na mesma semana em que o Bloco de Esquerda reafirma a continuidade na sua luta pela aprovação de uma lei que garanta o direito dos casais homossexuais a adoptar uma criança, surge mais uma infeliz deambulação relativa ao mundo LGBT. Refiro-me ao artigo publicado pelo Semanário Sol, da autoria de José António Saraiva, no qual o mesmo investe numa confusa análise a uma badalada notícia relativa ao ex-líder da JSD e ao seu ex-marido.

A notícia que JAS desconstrói no seu artigo de opinião, foi publicada no Diário de Notícias, e alude à recente queixa apresentada por Carlos Marcano na Polícia acusando Jorge Nuno de Sá de agressão. Relativamente àquilo que JAS afirma, urge destacar duas problemáticas que estão enraizadas no conservadorismo bacoco de grande parte dos opinion makers direitosos - ou simplesmente ignóbeis na compreensão do mundo LGBT. A primeira é a confusão da ausência de uma “mulher” e de um “homem” no relacionamento, ao passo que a segunda, é o preconceito que associa a existência de casos de violência doméstica apenas ou predominantemente em casais gays.

Para Saraiva, ex-director do Expresso e agora director do semanário Sol, a mesma notícia despertou-lhe o interesse devido ao “nome da mulher”, acrescentando que “havia supostamente uma mulher que tinha acusado o marido de agressão. Ora a mulher chamava-se Carlos Maceno. Foi isto que me fez voltar atrás.” Mais adiante no texto, afirma que “o leitor já percebeu uma dificuldade semântica com que me tenho defrontado neste texto: não havendo neste ‘casal’ um marido e uma mulher, poderá falar-se em dois maridos? Ou seja: Carlos Marcano é marido de Jorge Nuno de Sá e este é marido de Carlos Marcano?”

Farei de bom grado, o esclarecimento de que o caro senhor Saraiva necessita. É mesmo verdade. Num casal homossexual existe um homem e homem. Ou então, uma mulher e uma mulher. Bem, segundo o poliamor também pode haver um homem e um homem, e pelo meio uma mulher e um outro homem. Quem sabe? A decisão cabe a cada pessoa e não ao director do Sol. A ingerência nos assuntos privados e na sexualidade dos cidadãos não é novidade. Esperava-se que após a aprovação do casamento homossexual algumas barreiras fossem quebradas. No entanto, os argumentos homofóbicos continuam a ser os mesmos, e a atitude machista e predominante continua a proliferar, seja nos média ou no café da esquina.

JAS refere duas questões: a de que a instituição casamento foi desde sempre associada a um homem e a uma mulher – e portanto tal visão católica da coisa tem que ser intocável – e, por outro lado, que devido ao facto dos gays terem travado uma tão grande luta para se poderem casar tal não lhes reserva o direito de se poderem separar tão facilmente como os casais heterossexuais.
Estes dois comentários podem receber uma análise conjunta. Em primeiro lugar, a “instituição” casamento é apenas mais um daqueles moldes do pensamento dominante para onde a Sociedade e os seus interesses tentam empurrar cada um de nós, tentando fazer com que a mesma esteja apenas disponível para o coroar da “normalidade” heterossexual. A Sociedade não é imutável e a História não chegou ao fim. Tome-se o exemplo da parentalidade. Nos dias que correm é cada vez mais normal a existência de famílias monoparentais – são circunstâncias do tempo e que decorrem, naturalmente, das mudanças sociais. Se de tal falássemos há uns anos atrás, decerto que vários imperativos morais seriam trazidos à tona para condenar tal situação. Por outro lado, o argumento falacioso de que os casais gays, por terem lutado para se poderem casar não se poderem divorciar, é um tremendo desrespeito e uma falta de noção completa da realidade. Se fossemos seguir a mesma lógica, poderíamos retroceder no tempo e abolir a lei do divórcio. Isto porque, a instituição casamento é para toda a vida…Infelizmente, para JAS, as nuances no íntimo de cada um e nos seus relacionamentos são privilégios dos heterossexuais.

Subjacente a toda esta temática, denota-se a utilização da ironia e do sarcasmo quando o mesmo se refere à pretensa agressão do ex-deputado e líder da JSD ao seu ex-marido. A ideia ilusória de que a violência impera e predomina única e exclusivamente nos casais gays é promovida pelo mediatismo que lhes é dado. Infelizmente, uma notícia nos mesmos moldes que se refira a pessoas de sexos distintos não é tão apelativa. Principalmente quando, neste caso, a noticia é relativa a uma pessoa com q.b. visibilidade na Sociedade portuguesa. O salazarismo força à velha máxima do “entre marido e mulher, não se mete a colher.”, mas o mesmo não se aplica quando há um homem e… um homem. Recordo, que até há bem pouco tempo a violência doméstica não era sequer crime. Tal passou a ser através de uma proposta de lei do Bloco de Esquerda. Esse partido que só se interessa pelas causas estruturantes mas que, na realidade, até permite o avanço da mentalidade civilizacional do nosso país.

Este género de tomada de posição em nada favorece o respeito pelo próximo e, principalmente, o respeito pelos direitos fundamentais. É um direito amar quem se quiser amar, sem se ser julgado. Aliás, para aqueles que insistem em discriminar tendo em conta a orientação (e sim, orientação ao invés de escolha) sexual, não se deve esquecer que essas pessoas são parte integrante da mesma Sociedade, pagam os mesmos impostos e respeitam as mesmas regras que os outros. A questão da adopção de crianças por parte de casais do mesmo sexo ainda levanta mais polémica do que o próprio casamento. Tão importante como consagrar este direito, é a necessidade do desenvolvimento de uma política de sensibilização junto aos portugueses que tenha como objectivo último a desmistificação da temática. Só desta forma é que se poderá combater a imposição do pensamento único, desta feita veiculado por Saraiva, que se reflecte num imenso desrespeito pelo mundo LGBT.


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Sábado, 6 de Agosto de 2011

Chão da Lagoa, BPN e primeiro mês de governação: diz que é uma espécie de silly season

Quando o mês de Agosto bate à porta, a expressão que prolifera por todos os meios de comunicação social e pelos seus famigerados opinion makers é silly season. Ora, o senso comum diz-nos que esta expressão se refere à frivolidade, futilidade e até, inutilidade, patente nas notícias que nos chegam numa altura onde toda a actividade política cessa – quando o país “está de férias”. Apraz-me dizer que este ano, e ainda que Passos Coelho – na sua altiva posição de Salvador da Pátria – tenha anunciado que os deputados não deveriam contar com férias tão cedo visto que até no santo mês de Agosto é necessário legislar mais austeridade, o termo silly season tem vindo a ganhar toda uma nova expressão e dimensão.

No passado fim-de-semana, realizou-se no Chão da Lagoa a mais popular das festas laranjinhas. Invariavelmente, a mesma continua a pautar pela ostentação do “regime” social-democrata da Madeira, com o seu líder indisputável a vociferar, novamente, para todas as direcções. Entre o pseudo bate-boca com Paulo Portas e a sua vã promessa de deixar o poder caso não consiga maioria absoluta nas eleições regionais de Outubro (lembremo-nos que em 2007 já havia jurado a pés juntos não se recandidatar), Jardim teceu um iluminado comentário relativamente ao Bloco de Esquerda. Segundo as sábias palavras do Líder do PSD/Madeira, o Bloco é "aquele partido dos casamentos gays". Acrescentando que "essa fruta não é fruta que seja consumida dentro do povo social-democrata. Eles que vão casando uns com os outros”. Cabe-me a tarefa de agradecer, da forma mais sincera possível, a Jardim. É verdade o que este diz. O Bloco de Esquerda é “o partido dos casamentos gays”. Aproveito para clarificar que somos também o partido que defende a IVG, que apresenta no Parlamento a proposta de lei para legalizar a eutanásia, que quer também legalizar as drogas leves, que defende o fim dos falsos recibos verdes, que quer uma auditoria pública à divida, que quer renegociar essa mesma dívida, que defende os direitos de Abril, que luta contra a precariedade, entre tantas outras coisas.

Tudo aquilo que incomoda o arco governativo, preocupado com a saúde do capital financeiro ao invés de se preocupar com os direitos dos portugueses, é e continuará a ser defendido pelos bloquistas. O argumento falacioso de que o Bloco é o partido das causas fracturantes e que pouco interessam é já o discurso dominante das peças da “mobília” conservadora/bacoca do mundo político português. O Bloco luta para que estas causas fracturantes, que na realidade não o são ou pelo menos não o deveriam ser, sejam discutidas na esfera pública. Tudo porque, acima de tudo, o BE é um partido que luta pela igualdade dos cidadãos e para que cada um deles possa usufruir dos seus direitos. Partidos que existem única e exclusivamente com o propósito de defender o pobre capital financeiro há muito que existem e governam este país. Posto isto, só me resta reiterar o agradecimento ao madeirense por tão prestigioso e notável reconhecimento.

Falando em direitos e em igualdade, é assombroso ver a perpetuação do ataque cerrado por parte do capital ao salário e aos direitos do trabalhador. Este primeiro mês de governação da coligação entre PSD/CDS fica marcado por mais austeridade patente no imposto sobre o subsídio de Natal, nas alterações ao código do trabalho, no aumento brutal do preço dos transportes e com a venda a preço de saldo do BPN. Que Passos Coelho iria quebrar promessas de campanha eleitoral, dúvidas não restavam. A questão é que não o esperávamos tão cedo. Os neoliberais já nem se dão ao trabalho de omitir a sua agenda política.

O BPN irá, desde já, tornar-se num símbolo daquilo que este Governo irá promover. Tudo aponta para que esta venda por cerca de 40 milhões de euros trará um enorme prejuízo ao Estado que por si só já investiu mais de 2,5 mil milhões de euros no BPN. Já para não falar das obrigações que ainda vão ligar o Estado ao Banco Português de Negócios. Novamente, este negócio apenas vem servir os interesses do capital financeiro que consegue desta forma fechar um verdadeiro negócio da China. O regabofe continua. Os donos do capital regozijam enquanto os portugueses irão continuar a penar ao ver o dinheiro dos seus impostos enterrado em nacionalizações de prejuízos e nos negócios for the boys.

Poder-se-ia ainda falar da privatização da RTP, das querelas entre a Imprensa e a Ongoing, das nomeações para a CGD e das Secretas, entre tantas outras. No entanto, é maçador continuar a interpretar e desconstruir notícias que de sério pouco têm. O ridículo desta silly season que não o era suposto ser -dada a preocupante situação do nosso país -, serve como elemento caracterizador dos políticos que irão liderar o nosso país num futuro próximo e que nos encaminha, de forma calma e confiante, para as garras do capital e para o consequente abismo. Isto é… a menos que o partido do casamento dos gays tenha algo a dizer. Infelizmente para esta silly classe político-económica, parece-me que terá.



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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

Pós-eleições - a previsibilidade do futuro

Os resultados do passado dia 5 de Junho confirmaram uma viragem à direita, que se tem vindo a verificar um pouco por toda a Europa. Parece justo afirmar que, se dúvidas havia do rumo governativo que o Estado Português iria tomar com esta aliança do extremismo neoliberal de Passos Coelho com o conservadorismo democrata-cristão de Portas, estas se dissiparam rapidamente. O capital está, progressivamente, ao ataque - com o compadecimento da União Europeia - e Portugal caminha para a bancarrota e para o mais brutal ataque aos direitos sociais e laborais alguma vez presenciados na história da democracia portuguesa.

A nova composição da Assembleia da República merece, por si só, uma análise. A obtenção da tão necessária maioria governativa que Cavaco reclamava com objectivo último de permitir a estabilidade política de forma a pagar a ‘ajuda’ externa da troika materializou-se na aliança, desde logo previsível, do PSD com o CDS/PP. Esta semana, com a apresentação do programa de Governo, foram desvendadas as ‘prendas de Natal’, e não só, que serão gentilmente oferecidas aos Portugueses.

O PSD, em êxtase, com o líder mais neoliberal dos últimos anos prometeu e está a cumprir – este Governo irá mais longe nas suas medidas do que aquilo que ficou acordado no memorando da Troika. Passos Coelho tem nas suas veias o fervilhante sangue neoliberal que o impulsiona a, cada vez mais, querer tornar-se num obediente discípulo de Angela Merkel. A necessidade de demonstrar que pode privatizar tudo o que é possível já era previsível. No entanto, auxiliado pelos tiques conservadores de Portas e pela bandeira de que todos aqueles que recebem subsídios são ‘preguiçosos’ assistimos à materialização dos desprezo pelos mais desfavorecidos na obrigação, por parte dos subsidiários do desemprego, de trabalhar de graça para as IPSS’s ou para as misericórdias. Este atropelo aos direitos das pessoas toma expressões práticas e decerto que não se ficará por aqui.

Por outro lado, aqueles que depositam as suas esperanças no PS só poderão ser, novamente, defraudados. Por hábito, quando se encontra na oposição, o PS, desfralda as bandeiras da esquerda e do socialismo. Ainda assim, e tendo a sua assinatura no memorando da troika, o seu papel como oposição está reduzido à crítica ao PSD/CDS quando estes forem além do mesmo documento. Excepção feita a este caso, irá alinhar sempre com o Governo. Desta forma, o mote “Nada esperamos do PS” está mais actual do que nunca.

O Bloco saiu fragilizado das urnas. O decréscimo do número de deputados assim o afirma. No entanto, fragilizado não significa derrotado. Os ecos que nos chegarão do trabalho desses mesmos deputados serão bem audíveis. Continuaremos a incomodar o capital e a ordem social hierarquizada instituída e, por isso mesmo, o Bloco de Esquerda continuará a ser o principal alvo a abater por parte da intelligentsia do arco governativo. E é esta a nossa missão. Não nos compete assistir impávidos e serenos àquilo que se passa nas ruas e no Parlamento Grego. Muito menos nos compete, compactuar com este saque à democracia que esta Europa está a fazer. Começou na Grécia, passou pela Irlanda e os seus efeitos cedo se sentirão em Portugal. Espanha e Itália serão os próximos. PIGS é nome atribuído pelos economistas aos países do Mediterrâneo que a Europa tem sob a sua mira. A esquerda europeísta deve lutar para que este saque brutal pare. A esquerda europeísta tem, mais do que nunca, a missão de sensibilizar e consciencializar as pessoas de que esta ‘ética social na austeridade’ que eles tanto apregoam não passa de um falso embelezamento no roubo de que vamos ser alvo.

Se durante anos nos disseram que Portugal ‘está de tanga’, e é sempre necessário ‘apertar o cinto’, a questão impõe-se… quando chegará a hora do capital financeiro apertar o cinto? Quando chegará a hora daqueles que efectivamente vivem acima das suas possibilidades paguem com as suas obrigações à Sociedade? Os próximos anos serão anos duros para os portugueses, que verão os seus direitos diminuírem e as suas obrigações aumentarem, tudo em nome crescimento económico do capital financeiro, dos interesses da Alemanha e da troika. A luta é intemporal e está na hora da mesma se intensificar.

Artigo publicado n'A Comuna