A diabolização da Esquerda é por si só um pró-forma no modus operandi das agências noticiosas nacionais
e internacionais. Tal situação agudizou-se, claramente, quando na segunda-feira
transacta os mercados, interesses adquiridos e instâncias financeiras acordaram
com os ecos do que se passava em França e na Grécia.
São várias as ilações a retirar. Em França, Sarkozy sofreu uma derrota
pesadíssima ao ser o primeiro presidente da 5º República francesa a não ser reeleito.
Os cidadãos franceses responderam, nas urnas, com um veemente não ao Tratado
Orçamental Europeu – apenas mais um conjunto de medidas impostas sem serem
submetidas a escrutínio popular. Ainda que não se devam criar ilusões em
relação ao que irá Hollande fazer ao encetar as tão amargas negociações com a
parte ainda resistente, mas moribunda, do Merkozy, é inegável afirmar que os
franceses se insurgiram contra a austeridade. Os resultados de Melénchon na
primeira ronda e agora a derrota de Sarkozy evidenciam a necessidade de mudança
e o início de uma ruptura com as políticas de austeridade do “Pacto
Franco-Alemão”.
Os mercados financeiros agitam-se, a bolsas entram em queda. O anúncio de
colapso está já a ser feito pela comunidade internacional. A “extrema-esquerda”
pode chegar ao poder na Grécia! As imagens dos gulags da URSS e das filas para senha de refeições já estão a ser
preparadas para entrarem em alta rotação nos
media. Ora bem, para os conservadores bacocos que querem continuar a
veicular a ideia de que todo e qualquer um que se afirme como socialista tem no
seu íntimo o desejo de “comer criancinhas ao pequeno-almoço”, desejo as boas
vindas ao Socialismo do século XXI.
É de recriminar a existência de “extremistas” que querem realizar uma
auditoria à divida e renegociá-la, que querem formar um governo de esquerda
alargada contra o governo da troika, que querem cessar a aplicação das medidas
de austeridade. Veja-se bem, esses mesmos extremistas não querem sair do Euro e
assumem uma postura europeísta! Em suma, estes seres ignóbeis que querem
construir uma sociedade mais igualitária e retirar a corda do pescoço do povo
grego, alcançaram nada mais, nada menos de 16% dos votos (mais de 1 milhão de
votos), sendo o segundo partido mais votado nas legislativas gregas.
Pois bem, atribuam a conotação que quiserem a este movimento mas o povo
grego mais uma vez se manifestou. E manifestou-se contra a ditadura da troika,
contra verem a sua vidas serem saqueadas por ingerência externa para satisfazer
os privilegiados de sempre.
A pergunta impõe-se.
Será possível ao Syriza formar Governo? As últimas notícias indiciam que tal
não será possível. O sectarismo do Partido Comunista Grego, o compromisso do
PASOK com o memorando e a posição dúbia da Esquerda Democrática – ainda que
tenham chegado a um acordo – tornam pouco provável a formação de uma coligação.
Há esperança na Europa. As falácias da inevitabilidade e do fatalismo
começam, lentamente, a ser descodificadas pelo povo europeu. E talvez, se esta
vaga de não conformismo se alastrar pela Europa, possamos um dia efectivamente
auto intitular-nos de povo europeu, ao invés de fantoches da troika, da França
e da Alemanha.
A Front de Gauche e o Syriza são um exemplo que deveria ser transposto
para Portugal. Um alargamento da esquerda, uma rejeição do sectarismo em nome
da luta pelos direitos dos portugueses, um consenso que nos permitisse inverter
esta situação de submissão. Por cá continuaremos, a lutar por isso. Perceber
que um partido da nova Esquerda Europeia conseguiu obter 16% dos votos, é
perceber que a troika está pela hora da morte. E no final do dia, somos todos
gregos.
Artigo também publicado na Comuna.
Artigo também publicado na Comuna.