No contexto do pós-II Guerra Mundial, particularmente devido a características político-económicas, a ideia da construção sustentada de uma confederação de Estados Europeus com elevado grau de interdependência tanto a nível político como económico e social tomou as proporções que hoje reconhecemos na União Europeia. A teorização da criação de uma comunidade de Estados Europeus encontrou e continuará a encontrar obstáculos das mais variadas índoles.
O contra-senso, ironicamente, prende-se com o surgimento de problemas que, supostamente, estariam salvaguardados com a própria génese da UE.
Teoricamente, a União Europeia teria tudo para dar certo. Isto é, se o mundo fosse um local idílico. Na Era da Globalização, onde a necessidade constante de acalmar os mercados se sobrepõe ao principio fulcral de solidariedade e respeito pelos direitos dos povos, não é de admirar que a Europa caminhe em direcção ao abismo.
Os consecutivos tratados europeus ambicionavam criar directrizes comunitárias de entendimento económico, social e politico. Nas últimas duas décadas, foram notórios os esforços para relançar a Europa para os lugares cimeiros dos “motores da economia mundial”. A crise da dívida pública Europeia veio destruir tais ilusões. O euro fracassou. A falta da criação de medidas monetárias articuladas levou a um desequilíbrio brutal entre as mais pequenas e as mais poderosas economias europeias. A Europa deve crescer como um todo e não apenas “à boleia da Alemanha e da França”. Para ultrapassar a crise da dívida pública europeia a solução poderia passar, por exemplo, pelas eurobonds – correspondendo ao princípio da solidariedade económica.
Este raciocínio leva-me a referir um caso específico. O G dos PIG’S tem sido o mais massacrado pela UE e pelos porta-vozes da vontade europeia – Merkel e Sarkozy – mas, não criem ilusões, a atenção irá certamente virar-se para as outras “letras”.
A Grécia chegou novamente a um impasse. Desta vez, o primeiro-ministro Papendreou decidiu, após a confirmação do envio de uma nova tranche de apoio à economia grega, chamar os gregos a decidir sobre a continuidade da Grécia na zona euro. Volvido pouco mais de um dia, Papandreou demonstra intenções de voltar atrás com a sua palavra. Tudo devido às pressões dos mercados e, principalmente, de Durão Barroso, Merkel e Sarkozy.
A conclusão que retiro é uma só - os mercados e os lideres desta Europa têm medo da democracia. Impera agora, tentar responder a algumas perguntas. Que Europa é esta que tem medo da democracia? Que Europa é esta que relega os seus princípios e orientações centrais para último plano em detrimento da saúde das suas maiores economias e dos mercados financeiros?
A nossa geração foi bombardeada com a ideia de que nos deveríamos sentir como Europeus. Deveríamos afirmar, de peito cheio, que somos Europeus antes de dizer que somos portugueses. Para tal acontecer, a génese desta UE tem que mudar. Afinal de contas, eu não me orgulho de uma Europa que não se incomoda por ver um país e um povo claudicar por puro interesse económico.
Artigo também publicado no Global Pass